(São Paulo, BR Press) – Em cartaz até 6 de setembro, no Teatro Brigadeiro, o musical O Primo Basílio, extraído da obra do português Eça de Queirós, revela a versatilidade da atriz Ligia Paula Machado. Além de ser a protagonista do espetáculo, Ligia é produtora, bailarina e cantora. No palco ou na produção, a paulistana de 22 anos mostra, com o corpo e a mente, sua alma de artista.
Desde que foi escrito, em 1878, O Primo Basílio já foi traduzido para várias línguas ao redor do mundo. Além, é claro, de ter sido utilizado como minisséries de televisão ou ter virado filme. Talvez, o fato do romance ser tão realista, e ao mesmo tempo melancólico diante da realidade dos personagens, faz com que as pessoas se vejam participantes das cenas e julguem alguns intérpretes.
Essa 'coincidência' com o real, com o que existe em nossa sociedade, faz com que todos nós façamos uma avaliação de nossos próprios sentimentos e atitudes. O amor incondicional e eterno que juramos para alguém, que nem sempre dura para sempre, ou a forma como tratamos nossos serviçais, fica exposto no espetáculo.
Se de um lado temos uma empregada fiel, de outro temos uma que gosta de fazer chantagem. Quando pensamos que temos um amigo verdadeiro para a vida inteira, de repente ele se revela nosso inimigo. Enquanto alguém nos ama profundamente, nós o traímos com alguém que sentimos extremo desejo. Essas comparações, entre felicidade e tristeza, amor e ódio, honestidade e falsidade, diversão e compromisso, ficam nítidas durante toda a apresentação. São nesses momentos que percebemos o valor e a riqueza de um belo romance, e de um belo musical.
Novo cenário, novas versões
Enquanto Eça de Queirós utilizou a sociedade lisboeta para escrever O Primo Basílio, a escritora carioca Francisca Braga adaptou a história para nossa realidade. A cidade maravilhosa não poderia deixar de ser o palco desse romance. A capital fluminense tornou-se o lugar ideal para falar sobre o triangulo amoroso vivido entre Luisa, Jorge e Basílio.
Apesar de estarmos em 2009, a obra foi transcrita para o período que compreendeu os anos de 1959 até 1961. A era de Juscelino Kubitschek, da Bossa Nova, da Música Popular Brasileira e de outros movimentos importantes da nossa cultura e política rechearam o romance basiliano tornando-o mais brasiliano.
Entre 9 de agosto e 2 de setembro de 1988 foram exibidos 16 capítulos, na Rede Globo, da minissérie O Primo Basílio. Na televisão, Giulia Gam, Marcos Paulo e Tony Ramos interpretaram, respectivamente, Luísa, Basílio e Jorge. Escrita por Gilberto Braga e Leonor Bassères, O Primo Basílio, a minisséire, teve direção de Daniel Filho e excelente atuação de Marília Pêra, que representou a personagem Juliana, empregada que chantageia a doce Luisinha.
Em 2007, O Primo Basílio virou filme. Com Débora Falabella (Luísa), Reynaldo Gianecchini (Jorge) e Fábio Assunção (Basílio), a película também teve direção de Daniel Filho, mas não teve tanta repercussão quanto sua versão anterior.
Composição
O musical tem em seu elenco onze atores, seis músicos, cantores e bailarinos que inspirados no movimento musical Bossa Nova, desfiam canções de gêneros como MPB, valsa, samba de breque e tango. Os instrumentos utilizados pelos músicos vão do piano de cauda, violões, violino e flauta transversal passando pelo sax e percussão.
Dirigido por Dan Rosseto, O Primo Basílio – O Musical tem, além de Ligia Paula Machado (Luisa), os atores Luiz Araújo (Basílio) e Álvaro Franco (Jorge), entre outros. A parte musical é organizada pelo maestro Dyonisio Moreno, que utiliza de seu repertório para emocionar e fazer rir os espectadores da apresentação.
Em entrevista com a reportagem da BR Press, Ligia Paula Machado falou sobre O Primo Basílio, seu quarto trabalho como produtora, teatro, profissão, além de dizer como foram a produção e os ensaios para o espetáculo.
Como é ser produtora e protagonista de um musical aos 22 anos de idade?
Desde muito cedo tenho fascínio por todo tipo de arte. Sempre estudei muito e continuo estudando, não só artes cênicas, como ballet, canto e a própria formação em fonoaudiologia. A curiosidade sobre os bastidores sempre foi algo muito presente, tanto que as pessoas comentam da minha pouca idade para produzir, mas esta é minha quarta produção. A primeira como musical e com um patrocinador tão importante. Todo o esforço e dedicação entregues à produção e à atuação foram intensos, pois a personagem Luisa é uma mulher complexa e cheia de nuances que me exigiu muito estudo, pesquisa e longas horas de ensaio. A produção também não foi diferente, pois sou muito detalhista e gosto de supervisionar tudo. Este é um período de plena realização. Estou muito feliz.
Você conhecia a obra O Primo Basílio antes de ter recebido o convite para ser protagonista do espetáculo?
Quando li pela primeira vez O Primo Basílio, eu ainda estava no colegial. Fiquei envolvida pela trama. Li inúmeras vezes o livro, comprei a minissérie quando ficou disponível em DVD, assisti ao filme e estudei algumas teses sobre o livro e sobre a personagem Luisa.
Quais as semelhanças entre Lígia Paula Machado e Luisinha? E as diferenças?
Confesso que também sou um pouco intensa em minhas emoções como a personagem e um pouco romântica, mas mesmo encontrando pequenos pontos em comum, a Luisa é o extremo do romantismo. Justamente por se tratar de uma obra realista que faz crítica ao romantismo, muito frágil até mesmo por sua doença. A diferença principal é o fato da personagem Luisa deixar se influenciar por outras pessoas. Neste ponto acho que sou mais atenta.
Se você tivesse que interferir na obra de Eça de Queirós, o destino de Luisinha teria sido o mesmo?
Sou suspeita para falar, pois gosto muito do realismo aplicado na obra de Eça, e transformar o final em "felizes para sempre" não faria de O Primo Basílio um clássico. O fabuloso da trama é ver que mesmo o marido a perdoando, e a vilã não interferindo mais em sua vida, a culpa não permitiu que ela prosseguisse sua vida em paz.
Você tem alguma preferência por algum gênero teatral? O que há de especial em um musical?
Geralmente tenho preferência por drama, gosto de personagens misteriosos ou mesmo que tenham um percurso oscilante. Mas sou amante de todos os gêneros, tenho muita vontade de fazer uma comédia. O que gosto em alguns musicais, como O Primo Basílio, é o tom de magia que é empregado a algumas cenas. Posso falar com mais propriedade deste musical, e as cenas musicais mantêm o realismo da dramaturgia com canções leves em cenas leves do cotidiano, como as reuniões na casa de Luisa e em canções dramáticas como o rompimento de Luisa e Basílio, ou mesmo o tema da vilã Juliana.
O Primo Basílio já foi transposto para o cinema e para a televisão. Você acredita que transpor para o teatro uma obra literária é mais difícil devido às apresentações serem ao vivo?
Acredito que cada uma destas áreas tenham suas dificuldades em específico. A obra por si só apresenta uma carga dramática muito intensa e realista, o que já exige muito dos atores no palco, agora ao acrescentar a parte musical recheada por canções da Bossa Nova e MPB interpretadas pelo próprio elenco, há uma exigência ainda mais refinada.
Além de atriz, bailarina e cantora, você também produz O Primo Basílio. Como é exercer várias atividades em um mesmo trabalho?
Minha família é de artista mambembe, cresci com este exemplo de vida por isso me dediquei a várias funções na arte. Mas nunca imaginei que produziria meu próprio espetáculo de forma tão independente. É uma realização sem igual poder fazer tudo o que eu mais gosto no lugar em que mais me sinto a vontade, no palco. Trabalho com muita vontade, dedicação e amor, além de ser muito exigente, pois sei que o público também é.
Você acha que a exigência cada vez maior de novas habilidades em um artista faz com que eles se reinventem e se aperfeiçoem em novas técnicas e, consequentemente, haja uma redução no mercado de trabalho para esses profissionais?
A profissão de 'artista' apresenta muitas funções e acredito que o artista é um operário da arte e precisa se aperfeiçoar diariamente, não só o aprimoramento em sua área, mas o conhecimento em outras. O público é muito exigente e o mercado de trabalho consequentemente dará preferência a um artista mais completo, não que haja uma redução no mercado de trabalho, mas a seleção acaba sendo natural. O artista precisa de dedicação e empenho em sua profissão.
Como você vê o gênero Musical no teatro brasileiro? Acredita que nossa diversidade cultural na música pode ser aproveitada nos musicais, como a Bossa Nova, a MPB e o tango é em O Primo Basílio?
Até mesmo os produtores estrangeiros respeitam nosso cenário musical. Temos uma diversidade musical incrível e profissionais que fazem um trabalho magnífico com este material. O maestro Dyonísio Moreno, por exemplo, utilizou-se de clássicos da Bossa Nova e MPB para a composição de todos os arranjos originais neste espetáculo, já que a peça foi transposta para 1959 - Rio de Janeiro. O gênero musical no teatro brasileiro é vasto, temos muitos estilos musicais, profissionais que inovam, transformam e se especializam.
Como a equipe de O Primo Basílio tem recebido a opinião dos críticos e do público?
Respeitamos e somos muito atentos para o feed back tanto da crítica como do público. O espetáculo acabou de estrear então muita coisa ainda vai acontecer.
Qual o significado de levar uma obra literária como O Primo Basílio para o teatro?
Levar esta obra literária para os palcos, ainda mais adaptada ineditamente para musical é consciência de uma grande responsabilidade.
Qual a importância do teatro como linguagem para influenciar novos comportamentos?
A importância é única, sem tamanho, pois o artista é um formador de opinião que tem em mãos não só o poder de dosar suas emoções para conduzir personagens como atingir a sensibilidade humana, modificar pensamentos e atitudes com exemplos concretos. A arte é um instrumento fundamental para conduzir ou influenciar o comportamento humano.
O Primo Basílio – O Musical é composto por vários gêneros teatrais. Entre eles podemos observar o romance, a comédia, a tragédia e, possivelmente, a tragicomédia. Como você avalia essa versatilidade no musical?
Com a direção de Dan Rosseto todos estes gêneros foram mantidos diante do caráter realista original de Eça, justamente para compor as máscaras da burguesia e os personagens tão heterogêneos. Os personagens transitam por estes gêneros na peça, dividida em dois atos: a primeira parte do espetáculo é mais leve com tons mais recheados de comédia e romance. A segunda parte é mais densa na qual começa o sofrimento de Luisa com as ironias e chantagens da personagem Juliana.
O que o espectador vai encontrar no musical O Primo Basílio que ainda não viu no livro, na minissérie e no filme?
Uma história moderna, com clássicos da Bossa Nova e MPB, e interpretadas pelos personagens da trama, ao vivo, com músicos que interagem com a história no palco. Coreografias de tango, ballet e samba de gafieira. Uma produção que aposta na junção do cenário musical brasileiro com obras literárias no palco.
Sessões: sextas-feiras e sábados, às 20h30; domingos, às 19h. Em cartaz até 6 de setembro.
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (estudantes, aposentados, professores e classe artística).
Teatro Brigadeiro, Av. Brigadeiro Luís Antonio, nº 884, Bela Vista, São Paulo. (11) 3115.2637.
Agustín Carvalho
Repórter BR Press / Yahoo! Entretenimento
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"A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana."
( Franz Kafka )